O velho leon e natália em coyoacán

(não a música hipnótica-sensualista do Vitor Ramil, mas o poema do Leminski que lhe serve de letra)

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e domindo
(Leminski, 1983: 45)

Este poema determina a importância do ideólogo e do revolucionário, do facínio causado em Paulo Leminski por suas (de Trotski) propostas de transformação; o ideal de liberdade, igualdade, justiça, direitos. Esquecer os fatídicos e sangrentos dias de guerra civil, de mortos, de sangue, de luta armada, para conseguir ostentar minimamente o que deve ser projeto de uma vida: condições de sobrevivência saudável, tranquilidade, paz, ao lado de quem se ama. Este é o poema de Leminski para Trotski e sua esposa, Natalia. Todo o poema é uma perspectiva de esperança, de serenidade. A repetição da idéia “como em petrogrado aquele dia” é a distinção de calmaria: o silêncio, a nudez, o sono, o sonho, os dias tendo seus percursos os mais normais possíveis.

Do livro Entre Percurso e Vanguarda, de Manuel Ricardo Lima, que se propõe a comentar a obra de Leminski.

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